A Primeira Vitória da Esquerda no Pós-Impeachment

Mais do que uma medida puramente administrativa, a extinção do Ministério da Cultura se revestia de um significado ímpar na esfera da guerra política, pois poderia significar o início da ruptura com uma concepção autoritária e instrumentalista ideologizante da cultura, concepção essa que sempre fez parte da tradição socialista e comunista no mundo inteiro: a concepção segundo a qual a produção cultural deixa de ser um fenômeno espontâneo da sociedade e passa a ser uma política de estado, orientada por critérios que colocam essa produção a serviço de uma agenda ideológica.

Nesse modelo de produção cultural estatizada e ideologicamente orientada, o artista passa a ser um serviçal, em geral muito bem remunerado, de um projeto de poder e toda produção de cultura se reduz a um instrumento desse projeto e dessa agenda. A extinção do MinC abria assim a possibilidade de fazer um embate político ideológico com a esquerda em um patamar mais sofisticado do que a simples denúncia de corrupção. O recuo de Michel Temer encerra ou ao menos reduz por ora a possibilidade desse embate, no qual a esquerda já saiu vencedora sem nem mesmo precisar combater: bastou acionar seu poderoso lobby e contar com a inépcia política da direita.

A decisão do presidente Michel Temer de voltar atrás e recriar o Ministério da Cultura representou portanto uma vitória da esquerda na disputa política árdua que marcará a tentativa de desaparelhar o estado brasileiro após treze anos de processo permanente de ocupação de espaços que o petismo promoveu seguindo o receituário gramsciano. A decisão representou também mais do que uma derrota para a direita: representou nossa completa ausência de estratégia de ação e de liderança política nesse período pós-impeachment.

Quando falamos em ausência de liderança política de direita o fazemos tomando emprestado, sem pedir licença, o sentido que a esquerda dá ao termo: pois há uma distinção clara entre liderança pública ou popular e liderança política no seu sentido orgânico. Esta última tem que assumir para si a tarefa de antever cenários e definir estratégias e cursos de ação a serem seguidos pelos demais atores políticos, os quais a esquerda chama de militantes. Em nosso caso, temos que admitir que a direita brasileira, ainda que tenha líderes populares reconhecidos como tais como Jair Bolsonaro e uns poucos outros, carece dessa liderança orgânica.

Uma liderança política orgânica da direita deveria em primeiro lugar antever o cenário de derrota do petismo por meio do impeachment. Nós do Crítica Nacional já havíamos antecipado esse cenário antes mesmo da votação na Câmara dos Deputados, nesse artigo aqui e seguintes e nesse outro artigo aqui publicado na manhã do domingo da votação na Câmara dos Deputados. Sabendo-se então que o impeachment era favas contadas, caberia à liderança política orgânica da direita começar a definir as estratégias de ação antes do fato consumado. Mas a realidade é que, na ausência dessa liderança, após o impeachment os atores políticos da direita ficaram literalmente sem saber o que fazer, limitando-se a oferecer reações isolados e pouco efetivas, e em alguns casos equivocadas, às primeiras medidas do novo governo.

Da mesma forma, deveria ser evidente para uma estratégia de ação política inteligente por parte da direita que o petismo, ainda que apeado do topo do poder, continuaria a exercer pressão e lobby a partir de suas posições na máquina do estado, cabendo portanto nos antecipar de alguma forma a essas pressões. No caso específico da extinção do MinC, deveria Jair Bolsonaro, Marcos Feliciano, Onyx Lorenzoni outros terem feito chegar a Michel Temer o apoio de amplos setores da sociedade à decisão de extinguir o órgão, pressionando-o no sentido contrário para não ceder e deixando claro a dimensão ideológica dessa disputa. Até onde sabemos, não existiu essa iniciativa por parte das nossas lideranças populares. E na ausência dessa iniciativa, o lobby esquerdista atuou livre e sozinho para reverter a decisão, ainda que nós do Crítica Nacional tenhamos alertado para essa possibilidade nesse outro artigo aqui publicado um dia antes.

Esse episódio serve para mostrar que a direita necessita que suas figuras de expressão pública assumam para a si a tarefa e a incumbência de se constituírem também em lideranças políticas orgânicas dos atores políticos conservadores e de direita da sociedade civil, pois desfrutam de legitimidade e reconhecimento para tal. Lideranças políticas orgânicas que sejam capazes de antecipar cenários e definir estratégias em relação ao novo governo em um ambiente em que a guerra política exigirá muito mais do que vestir verde e amarelo e ir para as ruas exigir o fim de um governo corrupto. Se não formos capazes de perceber a dimensão desse desafio, em pouquíssimo tempo a esquerda, por meio de seus agentes no estado, na imprensa e na academia, conseguirá minimizar os danos que ela sofreu com o impeachment, transformando a derrota histórica que ela sofreu em um simples tropeço.


 

2 comentários sobre “A Primeira Vitória da Esquerda no Pós-Impeachment

  1. A direita conservadora agora é o alvo da esquerda e dos liberais, sem união seremos sufocados novamente. Que essa derrota nos mantenha em alerta.
    Estou divulgando o Crítica Nacional e se Deus quiser consolidaremos uma união de direita.

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  2. Será que Michel Temer vai continuar cedendo à qualquer pressão da esquerda? Ate qdo? Se nao for firme nao vai prevalecer. A esquerda se organiza, tem grupos fechados onde dissemina suas versões, e a direita? Tem feito o que? A gde maioria das pessoas nem querem saber direito o que está acontecendo. So estão como espectadores esperando as cenas do proximo capitulo. Triste realidade. Ninguem quer se envolver.

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