Igreja Católica: A Construtora da Civilização Ocidental

O que chamamos de civilização ocidental, com todo o conjunto de valores morais e éticos que a constitui, é o resultado histórico inequívoco de uma longa e ininterrupta construção empreendida pela Igreja Católica ao longo de cerca de quinze séculos. A Igreja Católica começou a construir a civilização ocidental ainda durante o Império Romano, sendo que o processo se acentuou e se tornou decisivo para o mundo ocidental durante toda a Idade Média na Europa, principalmente durante o longo período de dominação islâmica no sul do continente e no Magreb: enquanto o califado muçulmano no mediterrâneo se preocupava em apagar e destruir os resquícios da cultura greco-romana e inaugurava a prática de tráfico de escravos na bacia mediterrânea em direção ao Oriente Médio, a Igreja Católica se ocupava em preservar os elementos dessa cultura nas próprias igrejas e demais instituições como conventos e mosteiros.

Uma obra de quinze séculos
Na alta Idade Média ao final do milênio, a construção da civilização ocidental por parte da Igreja Católica se dava por um lado no campo da alta cultura com surgimento da escolástica, ao mesmo tempo em monges se ocupavam do desenvolvimento de técnicas agrícolas que foram essenciais para a agricultura de subsistência da Europa Ocidental durante toda a Idade Média. A tradição escolástica acentua um dos traços que o cristianismo herdou da cultura judaica que é o apreço a razão, a razão como um dom dado pelo criador à criatura para o entendimento do mundo à sua volta. Desse apreço à razão decorre o esforço da Igreja em criar a instituição que é uma das mais emblemáticas do mundo ocidental: a universidade. A universidade que conhecemos hoje, como centro de pesquisa e estudo científico, é uma criação da Igreja Católica já ao final do primeiro século do segundo milênio.

A igreja criou as bases para a fundação da ciência moderna, entendida como a investigação do mundo material por meio do uso da razão, na tentativa de compreendê-lo, pressupondo a existência de uma ordem e de leis naturais que regem esse mundo. Leis essas que são acessíveis à compreensão do único ser vivo dotado de razão: o ser humano. Essa ideia basilar não foi uma criação iluminista, mas esteve presente na escolástica e na prática concreta da Igreja que criou instituições para implementá-la: as universidades. Por exemplo, a ciência da economia nasceu na Universidade de Salamanca ao final do século treze, de modo que não é possível pensar a história do pensamento econômico sem a contribuição da Igreja remontando a esse período. A economia não nasceu a partir de uma epifania de David Ricardo e outros personagens do iluminismo. Da mesma forma, as cúpulas das catedrais e basílicas eram construídas com precisão para possibilitar observações astronômicas, de modo que as primeiras cartas celestes usadas pelos navegantes do renascimento resultavam dessa astronomia medieval criada pela Igreja.

A instituição que conhecemos como hospital nasce também por iniciativa da Igreja em meados do século treze como uma extensão do mandamento moral de caridade com enfermos, aliada à aplicação do conhecimento científico que já era desenvolvido nas universidades sob o patrocínio e estímulo da Igreja. A construção da nossa civilização por parte da Igreja Católica inclui também a moderna noção que temos do direito, que é distinto da noção do direito romano. A Igreja foi a responsável pela introdução na tradição jurídica do ocidente da noção de direito natural, que por sua vez tem as raízes no direito canônico, segundo o qual o indivíduo, pelo fato de ser humano, é dotado de determinados direitos que lhes são naturais em vista de sua condição humana, entre eles o direito fundamental à vida, o direito à dignidade, o direito de não ser agredido e o direito de não ter sua propriedade invadida ou tomada. Esse direito natural, que na verdade é uma expressão da ideia da dignidade com que todo ser humano deve ser tratado, independente inclusive de sua crença ou filiação religiosa, é um direito que independe de, e se sobrepõe a, qualquer ordenamento jurídico formal escrito ou consuetudinário estabelecido a posteriori pelas sociedades. Desse entendimento decorre a noção original de direitos humanos universais que conhecemos hoje. Essa noção decorre da tradição judaico-cristã e de nenhuma outra.

Uma obra renegada e esquecida de propósito
O papel da Igreja Católica como construtora de fato da civilização ocidental começou a ser negado e ocultado de maneira sistemática há cerca de duzentos anos. Essa negação deve início com o Iluminismo, que é ensinado nos livros escolares como sendo a era que teria inaugurado o uso da razão na história da humanidade, que antes teria vivido num período de trevas e de obscurantismo irracional e supersticioso patrocinado pela Igreja Católica. Essa possivelmente é maior e mais duradoura falsificação histórica de que se tem notícia, pois foi iniciada há dois séculos e persiste até hoje. Isso se deve em parte a Revolução Francesa, que a historiografia assinala como sendo o início da modernidade, onde fica subentendido que o período anterior seria oposto do que se entende por moderno e seria, portanto, um período de atraso, obscurantismo, de não uso da razão.

Oras, a Revolução Francesa foi essencialmente um episódio pautado pela irracionalidade e pela insânia, como todo evento revolucionário da história. Ela foi centrada na perseguição à Igreja Católica promovida por uma ditadura que se pretendia detentora do monopólio da razão para impor a ferro e fogo uma igualdade social que nunca existiu nem nunca existirá entre os homens, exceto no estado de miséria e pobreza absoluta. A revolução chegou até mesmo a promover um cisma da igreja no país, com a intenção de varrer da França Revolucionaria qualquer vestígio de cristianismo, em nome das luzes da razão. Nos dez anos do governo revolucionário, os iluministas revolucionários promoveram mais matanças e extermínios e episódios de histeria coletiva, que resultavam invariavelmente em mais assassínios em massa, do que em qualquer outro período durante a Idade Média. O morticínio promovido pela Revolução Francesa somente foi superado em número pelas revoluções socialistas que nela se espelharam no século vinte. E é emblemático que essa revolução tenha ocorrido justamente no país que surgiu do primeiro reino bárbaro cristianizado, o reino franco, razão pela qual a França é chamada de a filha mais velha da Igreja.

Mitos e falsificações
Há duzentos anos a Igreja Católica começou a ser apresentada como inimiga da razão e da ciência, indiferente aos direitos humanos, opressora em relação às mulheres, promotora e responsável por séculos de toda sorte de obscurantismo, atraso intelectual e científico e toda sorte de infortúnio da história humana, particularmente durante o período histórico em que a Igreja justamente mais se empenhava na construção da civilização ocidental, período esse que é estupidamente apresentado como Idade das Trevas. Essa falsificação histórica incluiu e inclui até mesmo a repetição incessante de mitos sabidamente falsos e até mesmo risíveis, como a de que a igreja negava a esfericidade do planeta e uma versão deturpada do episódio envolvendo Galileo Galilei, versão essa que é reproduzida até hoje nos livros escolares de física e que é muito bem explicada nesse vídeo.

A falsificação incluiu também uma mentira mais sofisticada, segundo a qual a adoção do cristianismo como religião oficial do Império Romano pelo Imperador Constantino resultou na tomada do poder político pela Igreja, que teria passado a ser o poder centralizador no império e posteriormente nos reinos e feudos europeus durante a Idade Média. Assim, as supostas trevas do período medieval seriam também explicadas pelo fato de a Igreja ter sido durante cerca de dez séculos o único poder politico centralizado em todo continente europeu, uma afirmação que está presente quase que textualmente em todos os livros escolares.

Essa versão é rigorosamente falsa. A adoção do cristianismo como religião oficial pelo Império Romano não representou a ascensão da Igreja ao poder político e sim o contrário: a adoção do cristianismo como religião oficial por Constantino representou a tomada da instituição pelo poder imperial, e posteriormente pelo poder local de feudos e reinos, que passou a exercer o poder de fato dentro da Igreja, da mesma forma que o império fazia quando a religião oficial era o paganismo. Supostos crimes religiosos eram julgados como crimes de estado segundo o direito romano, direito de caráter acusatório, não porque a Igreja detinha o poder político, mas porque o poder político havia tomado a instituição religiosa para si. Esse processo de apropriação da Igreja pelo poder secular se estendeu por cerca de dez séculos e somente começou a ser revertido a partir do Concílio de Trento, quando o Papado voltou a ter o direito exclusivo de nomear bispos (1).

Um reconhecimento a ser resgatado
Apesar de muitos historiadores modernos, não necessariamente cristãos, já não mais endossarem as falácias e todo tipo de falsificações que foram produzidas nesses dois séculos a respeito do papel central da Igreja Católica na formação da civilização ocidental, o reconhecimento mais amplo desse papel está longe de estar alcançado. Pelo contrário, a Igreja Católica continua sendo hoje a instituição mais atacada e combatida no mundo ocidental, e os cristãos são o grupo religioso mais perseguido no mundo, uma perseguição que se dá por meio da violência física pura e simples nos países de maioria muçulmana. A estimativa atual é de que cerca de cem mil pessoas são mortas por ano no mundo inteiro pelo fato de serem cristãs (2).

Esta perseguição física aos cristãos é completamente ignorada nas democracias ocidentais, que são justamente as herdeiras do legado da tradição que a Igreja construiu. Ao contrário, as democracias do ocidente vêm cometendo um suicídio civilizacional metódico há cerca de meio século. Um suicídio que se dá pelo esforço de negar as raízes judaico-cristãs de sua própria civilização, raízes estas que foram plantadas e cultivadas pela Igreja Católica ao longe de no mínimo quinze séculos. Essa tentativa de apagamento de suas origens, empreendida como projeto de engenharia social da esquerda revolucionária em escala global, se dá sob o pretexto da laicidade do Estado, que é deliberadamente confundida com a negação do conjunto de valores éticos e morais da sociedade que permitiram a formação de um estado laico e democrático. Afinal, as principais democracias do mundo nasceram nas sociedades de maioria cristã.

A defesa da democracia, dos direitos humanos no seu sentido original e a defesa da igualdade de direitos entre homens e mulheres passa também pelo reconhecimento e pela defesa do conjunto de valores éticos e morais da cultura judaico-cristã. Passa também pelo reconhecimento do papel central que a Igreja Católica teve e ainda pode e deve ter na manutenção da civilização ocidental. Pois esta civilização é, ao contrário do que dizem os comunistas e toda a esquerda globalista,  simplesmente o melhor legado que o gênio humano transmitiu para sua descendência. (3)

Nota:
A compreensão do papel central desempenhado pela Igreja Católica na construção da civilização ocidental passa também pela compreensão do que foi a Idade Média, um período da história que há mais de dois séculos é retratado de maneira complemente distorcida pelos historiadores marxistas. Nesse sentido, ganha importância e relevo uma obra como a da historiadora francesa Régine Pernoud, cujo livro Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram, será lançado em breve no Brasil pela Editora Linotipo Digital, com prefácio e notas do professor de história e medievalista Ricardo da Costa. O Crítica Nacional publicou uma resenha preliminar desse livro que pode ser lida nesse artigo aqui, e recomenda essa obra com muita ênfase aos nossos leitores.

Referências:
(1) Conforme mostra Olavo de Carvalho nesse vídeo aqui de apenas seis minutos.
(2) Como mostra esse excelente artigo de Reinaldo Azevedo.   
(3) Citação feliz e oportuna de uma autora convidada nesse artigo aqui.

001 Anuncio Ate 06 Maio 2016

 

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10 comentários sobre “Igreja Católica: A Construtora da Civilização Ocidental

    • Acho este artigo fundamental para qualquer um que é catequista. Este é um conteúdo riquíssimo, o que me deixa impressionado o quanto fez a igreja católica.

      Estas informacoes sao, lamentavelmente, omitidas de todos nós. Do meu tempo de igreja, nunca ouvi falar de algumas coisas que se encontra relatado no vídeo. Recordo-me também outra coisas que aprendi numa uma mensagem de Nossa Senhora, em que Ela fala da grandeza de Seu nome. Nunca li uma mensagem onde a própria Nossa Senhora abordava de como Ela gostaria que tratasse Seu nome. Veja a mensagem aqui. http://regentesanto.com/incorruptibilidade-de-nossa-senhora-o-maior-terror-do-demonio/

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    • A Influência da Civilização
      Islâmica no Ocidente
      René Guénon
      Capítulo VIII de “Aperçus sur l’Esoterisme Islamique et le Taoïsme”
      Éditions Traditionnelles, Paris, 1983
      A maior parte dos europeus não avaliou exatamente a importância da contribuição que recebeu da civilização islâmica nem compreendeu a natureza de seus empréstimos no passado e alguns chegam a menosprezar tudo o que tem relação com ela. Isto ocorre porque a história, tal como é ensinada, contraria os fatos e parece ter sido alterada voluntariamente em muitos pontos. É com exagero que esse ensinamento divulga o pouco de consideração que lhe inspira a civilização islâmica e tem o hábito de desmerece-la cada vez que a ocasião se apresenta. Convém observar que o ensino histórico nas universidades da Europa não mostra a influência islâmica. Ao contrário, as verdades que deveriam ser ditas acerca deste assunto, quer se trate de professar ou de escrever, são sistematicamente desviadas, sobretudo com relação aos acontecimentos mais importantes.
      Por exemplo, sabe-se geralmente que a Espanha ficou sob a lei islâmica durante vários séculos, mas nunca se diz que houve o mesmo em outros países, tais como a Sicília e a parte meridional da França atual. Alguns querem atribuir este silêncio dos historiadores a algum preconceito religioso. Mas, que dizer dos historiadores atuais cuja maior parte não tem religião, ou mesmo são adversários de toda religião, quando confirmam o que seus predecessores disseram de contrário à verdade ?
      É preciso pois ver aí uma conseqüência do orgulho e da presunção dos ocidentais, o que os impede de reconhecer a verdade e a importância de suas dívidas para com o Oriente.
      O mais estranho neste caso é ver os europeus considerarem-se como os herdeiros diretos da civi1izaçao helênica, quando a verdade dos fatos invalida essa pretensão. A realidade tirada da história estabelece categoricamente que a ciência e a filosofia gregas foram transmitidas aos europeus por intermediários muçulmanos. Em outros termos, o patrimônio intelectual dos helênicos não veio ao Ocidente senão depois de ter sido seriamente estudado pelo Oriente Próximo. Não fossem os sábios do Islã e seus filósofos, os europeus permaneceriam na ignorância total desses conhecimentos durante muito tempo, se viessem alguma vez a conhecê-los.
      Convém observar que falamos aqui da influência da civilização islâmica e não especialmente árabe, como se diz às vezes sem razão. Porque a maioria dos que exerceram essa influência no Ocidente não era de raça árabe e se sua língua era o árabe, foi somente em conseqüência de sua adoção da religião islâmica.
      Visto que somos levados a falar da língua árabe, podemos ver uma prova certa da extensão dessa mesma influência no Ocidente, pela existência de termos de origem e de raiz árabes muito mais numerosos do que geralmente o crêem, incorporados em quase todas as línguas européias e cujo emprego continuou até nós, ainda que muitos entre os europeus que deles se servem ignorem totalmente sua verdadeira origem. Como as palavras não são outra coisa que o veículo das idéias e o meio de exteriorização do pensamento, compreende-se que seja extremamente fácil deduzir desses fatos a transmissão de idéias e de concepções islâmicas.
      De fato, a influência da civilização islâmica estendeu-se em grande medida e de maneira sensível a todos os domínios: ciência, artes, filosofia, etc. A Espanha foi um meio muito importante com relação ao Islã, e o principal centro de difusão dessa civilização. Nossa intenção não é tratar em detalhe cada um desses aspectos, nem definir a área de extensão da civilização islâmica, mas somente indicar alguns fatos que consideramos como particularmente importantes, ainda que sejam pouco numerosos em nossa época os que reconheçam esta importância.
      No que concerne às ciências, podemos fazer uma distinção entre as ciências naturais e as ciências matemáticas. Para as primeiras, sabemos com certeza que algumas delas foram transmitidas pela civilização islâmica à Europa que as adotou de modo completo. A química, por exemplo, sempre guardou seu nome árabe, nome cuja origem remonta, aliás, ao Egito antigo, e isto embora o sentido primeiro e profundo desta ciência tenha se tornado completamente desconhecido dos modernos e como que perdido para eles.
      Para citar um outro exemplo, o da astronomia, as palavras técnicas empregadas em todas as línguas européias são ainda na maior parte de origem árabe, e os nomes de muitos corpos celestes não cessaram de ser os nomes árabes empregados tal qual pelos astrônomos de todos os países. Isto deve-se ao fato de que os trabalhos dos astrônomos gregos da antigüidade, tais corno Ptolomeu de Alexandria, foram conhecidos por meio de traduções árabes, ao mesmo tempo que os de seus continuadores muçulmanos. Seria aliás fácil mostrar em geral que os conhecimentos geográficos, concernentes as regiões mais afastadas da Ásia ou da África, foram adquiridos, na maior parte, durante muito tempo, pelos exploradores árabes que visitaram numerosas regiões, e poderíamos citar muitos outros fatos deste gênero.
      Quanto às invenções, que não passam de aplicações das ciências naturais, elas seguiram igualmente a mesma via de transmissão, quer dizer, a intermediação muçulmana, e a historia do “relógio d’água” oferecido pelo Khalifa Haroun-el-Rachid ao imperador Carlos Magno não desapareceu ainda da memória.
      No que concerne as ciências matemáticas, convém dar-lhes uma atenção particular sob esse aspecto. Nesse vasto domínio, não somente a ciência grega foi transmitida ao ocidente por intermédio da civi1izaçao islâmica, mas também a ciência hindu. Os gregos desenvolveram também a geometria, e mesmo a ciência dos números, para eles, esteve sempre ligada à consideração das figuras geométricas correspondentes. Essa predominância dada à geometria aparece claramente, por exemplo, em Platão. Existe, entretanto, uma outra parte das matemáticas pertencente à ciência dos números que não é conhecida, como as outras, sob uma denominação grega nas línguas européias, pela razão que os antigos gregos a ignoravam. Esta ciência é a álgebra, cuja fonte primeira foi a Índia e cuja denominação árabe mostra bem como ela foi transmitida ao ocidente.
      Um outro fato que é bom assinalar aqui, apesar de sua menor importância, vem ainda reforçar o que dissemos; é que os algarismos empregados pelos europeus são por todos conhecidos como algarismos árabes , ainda que sua origem primeira seja na realidade hindú, porque os sinais de numeração empregados originariamente pelos árabes não eram outros que as próprias letras do alfabeto.
      Se agora deixarmos o exame das ciências pelo das artes, observaremos que, no que concerne à literatura e à poesia, muitas idéias, provenientes de escritores e poetas muçulmanos, foram utilizadas na literatura européia e que mesmo alguns escritores ocidentais foram até a imitação pura e simples de suas obras. Do mesmo modo podemos ressaltar traços de influência islâmica na arquitetura, e isso de um modo bem particular na Idade Média; assim, a cruz de ogiva, cuja marca impôs-se ao ponto de ter dado seu nome a um estilo arquitetônico, tem incontestavelmente sua origem na arquitetura islâmica, ainda que numerosas teorias fantasistas tenham sido inventadas para dissimular esta verdade. Essas teorias são contestadas pela existência de uma tradição de construtores que afirma constantemente a transmissão de seus conhecimentos a partir do Oriente-Próximo.
      Esses conhecimentos revestiam um caráter secreto e davam à sua arte um sentido simbólico ; eles tinham relações estreitas com a ciência dos números, e sua origem primeira tem sido sempre reconduzida aos que construíram o Templo de Salomão.
      Qualquer que seja a Origem longínqua desta ciência, não é possível que ela tenha sido transmitida a Europa da Idade Média por outro intermediário que o mundo muçulmano. Convém dizer a este respeito que esses construtores, constituídos em corporações que possuíam ritos especiais, consideravam-se e designavam-se como estrangeiros no Ocidente, ainda que estivessem no seu pais natal, e que esta denominação subsistiu até nossos dias, embora essas coisas tenham-se tornado obscuras e não sejam conhecidas mais que por um numero ínfimo de pessoas.
      Nesta rápida exposição, é preciso mencionar especialmente um outro domínio, o da filosofia, onde a influência islâmica atingiu na Idade Média uma importância tão considerável que nenhum dos mais renhidos adversários do Oriente poderia ignorar a força. Podemos dizer verdadeiramente que a Europa, nesse momento, não dispunha de nenhum outro meio para chegar ao conhecimento da filosofia grega. As traduções latinas de Platão e Aristóteles, que eram utilizadas então, não foram feitas diretamente sobre os originais gregos, mas certamente sobre traduções árabes anteriores, as quais estavam ligados os comentários dos filósofos muçulmanos contemporâneos, tais como Averróes, Avicena, etc…
      A filosofia dessa época, conhecida sob o nome de escolástica, é geralmente distinguida em muçulmana, judaica e cristã . Mas é a muçulmana que esta na origem das duas outras e mais particularmente da filosofia judaica, que floresceu na Espanha e cujo veículo era a língua árabe, como pode-se constatar por obras tão importantes como as de Moussa-ibn-Maimoun que inspirou a filosofia judaica posterior de vários séculos até a de Spinoza, onde algumas de suas idéias são ainda muito reconhecíveis.
      Mas não é necessário continuar a enumeração de fatos que todos os que tem alguma noção da história do pensamento conhecem. É preferível estudar, para terminar, outros fatos, de uma ordem completamente diferente, totalmente ignorados da maior parte dos modernos que, particularmente na Europa, não fazem deles a menor idéia, enquanto para nosso ponto de vista essas coisas apresentam um interesse muito mais considerável do que todos os conhecimentos exteriores da ciência e da filosofia. Queremos falar do esoterismo, com tudo o que se liga a ele e dele provém como conhecimento derivado, constituindo ciências totalmente diferentes daquelas que são conhecidas dos modernos.
      Na realidade, a Europa de nossos dias não tem nada que possa lembrar essas ciências; além disso, o Ocidente ignora completamente conhecimentos verdadeiros, tais como o esoterismo e seus análogos, ao passo que na Idade Média eles eram, ao contrário, muito mais conhecidos; e, neste domínio também, a influencia islâmica nesta época aparece do modo mais claro e mais evidente. É aliás muito fácil levantar seus traços em obras de aspectos múltiplos e cujo alvo real era bem diferente do literário.
      Alguns europeus começaram a descobrir algo desse gênero especialmente pelo estudo que fizeram dos poemas de Dante, mas sem chegar todavia à compreensão perfeita de sua verdadeira natureza. Há alguns anos, um orientalista espanhol, Don Miguel Asin Palacios, escreveu sobre as influências muçulmanas na obra de Dante e demonstrou que muitos símbolos e expressões empregados pelo poeta tinham sido usados antes dele pelos esoteristas muçulmanos e em particular por Sidi Mohyddin-ibn-Arabi. Infelizmente as notas deste erudito não mostraram a importância dos símbolos colocados na obra. Um escritor italiano, morto recentemente, Luigi Valli, estudou um pouco mais profundamente os poemas de Dente e concluiu que ele não foi o único a empregar os procedimentos simbólicos utilizados na poesia esotérica persa e árabe; no país de Dante e entre seus contemporâneos, todos esses poetas eram membros de uma organização de caráter secreto chamada “Fiéis do Amor” da qual o próprio Dante era um dos chefes.
      Mas quando Luigi Valli tentou penetrar no sentido de sua “linguagem secreta” foi impossível a ele também reconhecer o verdadeiro caráter dessa organização ou de outras da mesma natureza constituídas na Europa da Idade Média (1). A verdade é que algumas personalidades desconhecidas existiam por trás dessas associações e as inspiravam; essas organizações eram conhecidas sob diferentes nomes, dos quais o mais importante era o de “Irmãos da Rosa-Cruz”.
      Estes não possuíam, aliás, regras escritas e não constituíam de modo nenhum uma sociedade; eles não tinham nada assim como reuniões determinadas, e tudo o que podemos dizer é que tinham atingido um certo estado espiritual que nos autoriza a chamá-los “sufis” europeus, ou pelo menos mutaçawwufîn, chegando a um alto grau nessa hierarquia. Diz-se também que esses “Irmãos da Rosa-Cruz”, que serviam como “cobertura” das corporações de construtores das quais falamos, ensinavam a alquimia e outras ciências idênticas às que estavam naquele momento em plena floração no mundo do Islã. Na verdade, eles formavam um elo da cadeia que religava o Oriente ao Ocidente e estabelecia um contato permanente com os sufis muçulmanos, contato simbolizado pelas viagens atribuídas a seu fundador lendário.
      Mas esses fatos não chegaram ao conhecimento da história ordinária , cujas investigações não passam das aparências, enquanto é mais além, podemos dizer, que se encontra a verdadeira chave que permitiria a solução de tantos enigmas que, de outro modo, permaneceriam sempre obscuros e indecifráveis.
      *****
      Nota :
      (1)Ver a este respeito o livro de René Guénon : ” O Esoterismo de Dante” .

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  1. Parabéns mais uma vez!!!
    Esse conhecimento deve ser compartilhado com o mundo, talvez assim consigam abrir os olhos enquanto ainda há tempo.

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