Faz sentido dizer que houve excessos de ambos os lados no regime militar?

Um argumento comum usado para descrever a época do regime militar sob um aparente verniz de isenção e de neutralidade é dizer que nesse período de exceção, e foi de fato um período de exceção, durante o enfrentamento necessário que as forças armadas fizeram à guerrilha comunista, houve o cometimento de excessos de ambos os lados. Esse argumento, aparentemente neutro e que expressa uma inverdade, permite a quem o emprega e endossa condenar ambos os lados sem precisar fazer o necessário juízo moral sobre cada lado e sem precisar se debruçar sobre as reais motivações de cada um. E dessa forma se contribui para reforçar, ainda que com objeções superficiais, a narrativa prevalecente até agora sobre quem eram os bandidos e quem eram os mocinhos daquele período. Antes de abraçar a falácia do cometimento de “excessos de ambos os lados”, é conveniente observar e saber de fato quem eram esses dois lados:

De um lado havia um projeto político ideológico de tomado do poder pela força para a implantação de um regime ditatorial comunista, inspirado principalmente na então recém-instalada ditadura comunista cubana. Esse lado era formado por terroristas treinados e preparados em Cuba e na China e que recebiam apoio e financiamento e suporte logístico para ações que envolviam luta armada sob a forma de guerrilha, roubo a bancos, assaltos a quarteis militares, ataques terroristas com bombas em aeroportos e embaixadas e consulados, sequestro de embaixadores, assassinatos puro e simples em ações de emboscada, e roubos seguidos de assassinatos de civis comuns para uso de seus veículos em ações instantâneas, como fazem criminosos comuns hoje em assaltos e sequestros relâmpagos.

Esse mesmo lado também empregava sem parcimônia técnicas sofisticadas de tortura, também aprendidas nas ditaduras comunistas genocidas nas quais esses guerrilheiros foram treinados, contra civis inocentes que esses mesmos guerrilheiros considerassem suspeitos de colaborar com o que chamavam de a repressão. Esse lado também dispunha de suas próprias instâncias de justiçamento: os chamados tribunais revolucionários, que julgavam e condenavam à morte aqueles guerrilheiros que fossem suspeitos de traição ou desvio de conduta.

Da mesma forma, esse mesmo lado também não se furtava em assassinar em campo um de seus próprios integrantes no decorrer de ações de confronto com a polícia ou com os militares, caso se suspeitasse que o mesmo pudesse ser preso. A lógica dessa atitude é a mesma que guia toda a estrutura mental desprovida de qualquer moralidade por parte da esquerda: é mais interessante eliminar uma peça do que deixá-la viva e comprometer a integridade do coletivo. Esse mesmo lado também instruía explicitamente seus integrantes para, caso fossem presos, mentir ao sair da prisão e dizer que sofreram todo tipo de tortura. Essa mentira era e sempre foi essencial para a elaboração da falsa narrativa histórica que esse mesmo lado iria contar depois, anos mais tarde, antes mesmo de chegar ao poder pelo voto. Voto conquistado, aliás, com base nessa mesma narrativa falsa.

E havia o outro lado. Esse outro lado era formado pelas forças armadas nacionais que, em primeiro lugar, não estavam envolvidas na concepção e na elaboração de algum projeto de poder político ideológico de viés autoritário que fosse ser implantado por meio da tomada do poder pela força. Até porque, as forças armadas nacionais, por definição, já fazem parte da estrutura de poder do estado. Essas mesmas forças armadas, treinadas fundamentalmente para combater forças armadas estrangeiras segundo as regras observadas por exércitos regulares no mundo inteiro, nem mesmo sequer tinham, como não têm que ter, a missão de exercer função de polícia nem de combater civis armados.

Em dado momento, esse outro lado representado pelas forças armadas nacionais teve que partir para o enfrentamento de campo contra o crescendo de violência perpetrada pelos terroristas de esquerda, tanto no campo como nas regiões urbanas. Violência essa que já existia em larga escala antes de 31 de Março de 1964 e que se acentuou e se radicalizou por decisão política das esquerdas naquele ano e antes mesmo da decretação do AI-5 em 13 de Dezembro de 1968, que veio justamente como resposta a um cenário de violência que havia deixado de ser um problema de criminalidade comum, para se tornar uma ameaça à segurança nacional e à vida das pessoas comuns, e diante do qual as polícias estaduais eram impotentes para lidar.

No enfrentamento que se seguiu entre os dois lados, o lado das forças armadas por ser mais bem preparado e treinado saiu-se vencedor no campo militar, usando dos recursos que tinham que ser usados para redução de danos e evitar que a guerrilha e o terrorismo comunistas causassem mais vítimas civis, o que ainda assim não impediu que centenas de vítimas civis inocentes perecessem nas mãos e nas ações dos terroristas. Vítimas essas que são as verdadeiras vítimas do período de regime militar, e que em sua quase totalidade nunca mais foram lembradas e muito menos indenizadas.

Portanto, não faz sentido falar em cometimento de supostos “excessos de ambos os lados”, pois isso equivale a igualar nas ações, nos propósitos, nas finalidades e nas motivações e padrões éticos e de conduta, dois lados que jamais podem ser igualados: o lado dos que defendiam e defendem uma ideologia genocida que já ceifou a vida de mais de cem milhões de inocentes no mundo inteiro e que continua até hoje com seu intento, e de outro lado aqueles que foram heróis o bastante para impedir que essa ideologia prevalecesse, ainda que ao custo de serem retratados como vilões pela narrativa oficial que iria se impor anos mais tarde por parte daqueles que foram derrotados no campo militar. Uma narrativa que precisa e deve ser desconstruída em nome da verdade.


001 Anuncio Ate 06 Maio 2016

 

4 comentários sobre “Faz sentido dizer que houve excessos de ambos os lados no regime militar?

  1. Muito boa a argumentação do texto. Quem viveu a época sabe que a verdadeira história não é a que se conta por ai. Existe uma Verdade Sufocada que precisa vir a tona. A geraçőes mais recentes tem o direito de saber a realidade dos fatos e não uma história da carochinha.
    Podem começar pelo livro do Ustra.
    A Verdade é como um pequeno fio de água que rompe uma barragem. Primeiro abre um pequeno orifício… e depois arromba os paredões botando toda a estrutura rio abaixo!

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  2. Pingback: Paulo Eneas | Vivi no regime militar

  3. Olha só o Lincoln!

    Ele em sua vontade de exibir-se um democratíssimo tolerante e pacifista contra toda violência, reivindicando para si o valor da santidade das almas superiores, ao fim deixa cair a máscar e, como todo bom santo altruísta e abnegado, expõe o seu verdadeiro “EU” e diz: “todos voces merecem o paredão”

    Nada mais demonstrativo do que isso mara exibir a um pulha aquilo que ele é e que tenta atribuir a outros em sua FARSA MORALÓIDE apelativa.

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