Datafolha: como fraudar usando o rigor e o método

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O Datafolha publicou nesse domingo uma nova pesquisa que, como todas as pesquisas desse instituto, não merece qualquer credibilidade. A pesquisa foi montada e talhada para atender a agenda de prioridade política e de interesse econômico adotada pelo Grupo Folha. Agenda essa que consiste no esforço de garantir que a estrutura de poder instituída pela esquerda junto ao estado brasileiro nos últimos anos se mantenha intacta, ainda que às custas da derrocada do petismo. Para isso, o Grupo Folha tomou a iniciativa de publicar dias atrás um editorial, do qual tratamos nesse artigo aqui, defendendo o afastamento da presidente e também do vice e a realização de novas eleições esse ano.

Logo após a publicação do editorial, o jornal iniciou a campanha de tentativa de desconstrução de Michel Temer e de ampla concessão de espaços à Marina Silva, a petista que fundou outro partido para dar continuidade ao petismo. Isso pôde ser constatado facilmente no jornalismo marrom de tom vermelho praticado costumeiramente pelo jornal, que é o principal porta-voz da esquerda no país e cuja redação é composta na sua quase totalidade por comunistas da velha guarda e por novos esquerdistas moderninhos.

A pesquisa do Datafolha desse final de semana esteve portanto em consonância com essa movimentação que o Grupo Folha começou a fazer. A pesquisa mostrou Lula e Marina praticamente empatados em primeiro lugar numa hipotética eleição presidencial que fosse realizada hoje. A divulgação da pesquisa não fez menção com a ênfase devida ao fato óbvio de que tal resultado reflete tão somente o recall, ou a memória recente, dos eleitores em relação a última campanha.

A divulgação da pesquisa também não fez referência, e nem faria obviamente, ao fato de a pesquisa em si ser totalmente extemporânea, pelo simples fato de que a realização de eleições presidenciais no curto prazo não está na pauta política do país. A realização de eleições a curto prazo é apenas a vontade política dos petistas, incluindo Marina Silva, e do próprio Grupo Folha, que promoveu tal pesquisa justamente para atender essa finalidade e forçar para que esse tema entre na pauta política nacional.

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A pesquisa também afirma que percentual de entrevistados que querem o impeachment de Dilma é idêntico ao percentual daqueles que defendem o impeachment do vice-presidente Michel Temer. Aqui novamente a manipulação destinada a atender uma finalidade política fica bastante evidente, e por duas razões. Primeiro porque, assim como no caso das eleições presidenciais imediatas, o tema do suposto impeachment do vice-presidente não está em pauta, e faz parte apenas da estratégia de sobrevivência da esquerda, estratégia essa adotada pelo Grupo Folha.

Em segundo lugar, há um elemento de manipulação mais sutil nesse caso e por isso mesmo mais difícil de ser percebido: se for perguntado hoje a qualquer pessoa se ela defende o afastamento de qualquer político do cargo que ocupa, a resposta será majoritariamente sim, e com muita razão. Pois a classe política na sua quase totalidade carece de qualquer legitimidade e respeito por parte da maioria dos brasileiros. A exceção fica por conta de um número reduzidíssimo de parlamentares que desfrutam do respeito e da admiração por parte da maioria da população. E todos eles, não por um acaso, do campo da direita conservadora, a começar por Jair Bolsonaro. Portanto, a pergunta sobre o hipotético impeachment de Michel Temer é tão retórica quanto perguntar a uma pessoa se ela gostaria de pagar menos impostos.

Quando se diz que pesquisas como essa e de inúmeras outras do Datafolha não merecem credibilidade, não estamos falando de manipulação grosseira de dados dos respondentes. Do ponto de vista estritamente técnico e estatístico, a pesquisa pode atender todos os requisitos do rigor e do método científico. No entanto, é relevante fazer aqui um paralelo com as ciências naturais: ao contrário do que o senso comum sugere, o método científico baseado no ceticismo determina que a coleta de dados por experimento ou observação deve ser feita não para provar uma hipótese, mas para verificar se ela está errada. Pois sempre se parte do pressuposto de que qualquer hipótese está errada a priori, até evidência empírica ao contrário. Esse rigor metodológico assegura em geral o sucesso da atividade científica, embora não impeça a ocorrência eventual de fraudes em ciências naturais. Nas ciências humanas, essa fraude metodológica ocorre em escala muito maior, e os exemplos são inúmeros.

O que o Datafolha faz em suas inúmeras pesquisas, incluindo esta última, é exatamente esse tipo de fraude: a manipulação ocorre na concepção da pesquisa, na maneira de formular as questões e na escolha do tema e do momento de se sair a campo. Todo esse framework prévio é escolhido de modo que o resultado da pesquisa corresponda à expectativa de seus formuladores, que é justamente a de provar que sua hipótese está correta. Nesse caso, a hipótese em questão corresponde à posição política assumida pelo Grupo Folha, que é a de zerar o jogo político, com o afastamento da presidente e do vice e a convocação de novas eleições imediatas, com a expectativa de que Marina Silva vença o pleito para assegurar a continuidade da esquerda no poder.

Nota:
Os leitores mais familiarizados com a atividade científica devem compreender que empregamos deliberadamente o verbo provar e a noção de prova por abuso de linguagem.


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2 comentários sobre “Datafolha: como fraudar usando o rigor e o método

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